Quero agradecer a todos os visitantes que têm contribuido para que este blog
seja um lugar muito especial para mim e que têm partilhado comigo a paixão
que é a escrita.
Um enorme abraço, do fundo do coração,
Nádia
Emoções
Uns metros à frente acabava a rua. Eu ia no passeio do lado direito. Cruzei-me com a mercearia e com o restaurante. Passei os semáforos, que fazem esquina com a farmácia e nesta curta travessia, em que os ponteiros quase ficaram imóveis, senti tanta coisa, tantas emoções diferentes. Foi nessa altura que percebi o quão complexa sou.
Senti medo e frustração, senti força e coragem, embebidos em princípios de realidade; senti com os pensamentos, que empiricamente assimilei e com os pensamentos inatos, que expressam quem realmente sou, genuinamente.
Não quis que ninguém me olhasse ou desse pela minha presença. Quis passar despercebida, mas quis também que me notassem e alguém parasse perto de mim e me afagasse o rosto. O meu dia seria, definitivamente, melhor.
Gestos que conversam…pode parecer absurdo, mas há quem assim os sinta.
O fim da rua continuava lá, igual ao dia que terminara. Eu, completamente vulnerável ao sol e ao vento, ao tempo incerto, que imiscui-se nas minhas incertezas, incertezas essas que nunca são unicamente minhas e que por isso são ainda mais meticulosas.
Não olhei para trás. A rua vai reconciliar-se com os barulhos naturais e amanhã já nenhuma das minhas palavras pensadas vagueará pelo cimento.
Amanhã, vou de novo, cruzar-me com o restaurante e com a mercearia, esperar que ninguém repare em mim, camuflar-me de invisibilidade e chegar à outra extremidade da rua, sentindo de forma diferente, sentindo uma imensidão de coisas diferentes , sendo eu mesma, complexa e conectada ao meu pequeno mundinho.
Um dia diferente
Hoje é um dia triste!
Dia triste, porque sei que vou perder um amigo, por pura inconsciência das pessoas, por pura maleficência dos demais.
O meu amigo tem quatro patas, pêlo castanho cintilante, focinho risonho e ternura no olhar.
O meu amigo tem vida…por pouco tempo e eu, aqui, sem poder fazer nada. Esta é a maior das minhas culpas, apesar de saber que tentei de tudo, ou talvez não…a dúvida perdura.
A cada dia que passa apercebo-me mais da crueldade do mundo, sobretudo para aqueles que se limitam a deambular pelos dias, a voar pelas semanas a sobreviver aos meses.
Hoje não tenho rosto nem alma, apenas vontade de isolar-me e fugir de todos. O meu amiguinho nunca saberá o que é alguém gostar dele com carinho.
É-me impossível deixar de pensar que a qualquer momento poderás deixar de respirar, porque , pretensiosamente, o Homem pensa que todos os lugares lhe pertencem e para ti não há lugar, nem um cantinho pequenino, onde te possas sentir seguro.
Não posso evitar a sua sentença e isso magoa tanto como tantas outras coisas na vida.
Onde quer que ele esteja, só posso pedir desculpa por não ter podido fazer mais e se para alguns poderá parecer ridículo eu estar a falar dele como se fosse uma pessoa, pouco me importa, sinceramente.
Não vou esquecer o seu olhar doce , nem vou esquecer as pessoas de bom coração, que tudo fizeram para lhe conseguir um lar.
Hoje é um dia triste…ficarão sempre as saudades!
Casualidade ou Sonho
No outro dia encontrei Pessoa.
Estava com ar longínquo e sóbrio, alegre e libertador.
Estava sentado num banco de jardim a olhar os pássaros e os transeuntes .
Tive de olhar duas vezes, e ainda outra e outra, para acreditar que não era miragem nem sonho. Era mesmo o maior poeta de todos os tempos.
Do bolso do casaco saltava à vista o seu bloco de notas amarelecido e um maço de cigarros corroído pelo tempo.
Pessoa batia a perna na calçada, nervosa por algo que não vislumbrava e suspirava, murmurando - “Ofélia”.
Tomei a liberdade de sentar-me a seu lado e puxei conversa.
Estou confusa, triste, cansada…quase derrotada pelos últimos acontecimentos.
Mais uma vez sinto que estou no meio do nada, perdida, entregue a algo que desconheço. Sem cheiro, sem paladar, sem sinais de existência.
Preciso descansar destas adversidades e encontrar de novo o cacilheiro, que me leve a porto seguro.
Há quem me diga que posso ser feliz…plenamente feliz…acredito, duvido, não penso, esmoreço, resigno-me…caio no chão já cansada, de navegar no “mar negro”.
Preciso sentir que rasguei a pele e fui À luta, que cedi de todas as formas e dei todas as hipóteses. Preciso sentir que foi a última gota de água.
Cada um de nós carrega a vida à nossa maneira. Não há uma única e perfeita estória, capaz de relatar todas as vivências. Somos muitos, somos tantos, somos tão poucos afinal…
Pessoa puxou da caneta e escreveu o seu nome num papel. Pediu para que eu fizesse o mesmo. Não percebi, mas não permiti a mim mesma dizer o que quer que fosse naquele fabular momento.
O poeta rasgou o papel a meio e disse-me: «Seja qual for o rumo que tomares, eu estarei contigo a caminhar em direcção ao Sol, porque quando nos escondemos na sombra, a luz é o único caminho possível».
Fernando Pessoa levantou-se e desapareceu por entre as árvores.
Eu fiquei ainda sentada no banco de jardim, pensando que todo aquele momento poderia dar um bonito poema.
Cheeeesssee!!!
Tenho um telemóvel novo. Parece que me foi oferecido um brinquedo todo
artilhado de diversão e é ver-me deliciada a descobrir as suas funções.
Não é um telemóvel qualquer, porque para além de ser “gorgeous” como dizem os britânicos, tem multifunções . Só não passa a ferro nem faz torradas , de resto, é bestial!
No dia em que pensei ir buscá-lo à maternidade , resolvi dizer ao meu pai.
A conversa nem correu mal. Eu disse: «Pai vou comprar um telemóvel, em quatro prestações», o meu pai respondeu: «Ai sim e quanto custa?!» A PERGUNTA-CHATA-QUE-ERA-ESCUSADA-POIS-OBRIGOU-ME-A-RESPONDER!!!«sim, é um bocadinho caro, mas vou pagar em quatro vezes! custa 400 euros. Bem , o meu pai ia tendo uma coisinha má! Retorquiu ele: « 80 CONTOS???????ENDOIDECESTE??!!». Nunca vi o meu pai a converter euros em escudos com tanta rapidez.
A verdade é que lá fui comprar o «aparelho de comunicação móvel», como dizia um professor da faculdade, que julgo que nunca soube que já havia sido inventada a abreviatura telemóvel.
Até foi uma situação curiosa, porque a funcionária da loja tinha o mesmo nome do que eu e isso já foi motivo para dar duas de letra e acabarmos por combinar um cafézinho quando eu passar por lá.
Como o telemóvel tem câmara fotográfica, é ver-me clicar por aí. Ora os colegas de trabalho, ora o cromo do meu namorado, ora outra coisa qualquer , só pelo gozo de ouvir o barulho da maquinazinha.
Parece que vou ter entretém nos próximos dias, até porque tenho uns joguitos para jogar e mais umas tareias para dar a uma certa pessoa que me desafiou para umas partidas de bowling e acabou a pedir misericórdia..
Parece que é verdade, existe sempre um Peter Pan dentro de nós, uma criança reguila , que brinca com ilusões e que voa sob os próprios sonhos.
Eu já vos disse que tenho um telemóvel novo??
Isto hoje está de loucos!!
Bem , eu ainda não tinha referido isto, mas sou operadora de Call center
e hoje , que é segunda-feira e eu gosto muito das segundas feiras , quase
tanto como gosto de tripas à moda do porto com chantilly e molho béchamel,
temos uma fila de espera interminável e uma paciência a desvanecer como
areia por entre os dedos.
A questão é que estou verdadeiramente irritada com uma coisa em
particular, a manga da minha sweat-shirt , que resolveu alargar e está a dar
comigo em doida!!! Parece um tunél , por onde consigo ver o meu pulso
esguio.
Isto pode parecer disparate, mas são cismas destas que podem levar à
loucura e eu confesso que estou prestes a tirar a camisola e a enviá-la
janela fora. Só não faço isso, porque seria despedida por agressão às
"bistinhas"dos outros agentes e por falta de pudor.
Estou mesmo a ver o lindo dia que vou ter. Cada chamada, cada
espreitadela para a camisola, que está agora quase invisível, por baixo do
casaco. Não aguentei a tortura!!
Não param de cair chamadas e logo hoje que trouxe o meu estojo de
manicura! Estou obviamente a brincar , até porque, não temos espelhos por
aqui, apenas um computador, um "headset" na cabeça e a alegria de nos ver a
falar, gesticular e fazer caretas para o ecrã do "bicho".
Isto aqui tem de tudo, tal qual a feira dos carvalhos e outras feiras da
família, ora reclamações, ora clientes de língua afiada e barbaramente
cortante, clientes que são exímios contadores de histórias; clientes estilo
Super-Homem, dá gosto vê-los voar e clientes simpáticos, a quem agradada
atribuiria um Oscar pela compreensão.
A verdade é que este trabalho não é como apanhar morangos no campo ou
regalarmo-nos com banhos de sol na praia de Valadares, é bastante
desgastante , bem mais atlético do que fazer 500 abdominais e outros tantos
dorsais, com pino e cambalhota.
O dia hoje até está bonito, repleto de sol , de boa disposição ,mas só para terem uma noção, apesar do meu estado de humor estar relacionado directamente com aquela estrela, não consigo deixar de pensar na maldita manga. Ora bolas!!!
Parece que a entrada de chamadas diminuiu consideravelmente, bem como os
insultos. Felizmente este tipo de atendimento não é interactivo, senão era
ver cadeiras a sobrevoar as nossas cabeças, feras atiçadas prontas a
limpar-nos o sebo e mestres do Kung Fu a ver-nos practicar o "kung fujo".
Portanto, para já, para já, estamos minimamente seguros.
A manhã passou, a paranóia da sweat é que nem por isso, mas vou tentando
esquecer e gozar esta segunda-feira, que apesar de ser enfadonha e
terrivelmente sonolenta, é sempre bom começar o dia com energia positiva.
Uma boa semana!!
Falsidade
Parece um jogo injurioso
falso, oblíquo, tradicional
Com peças sujas de sal
E tabuleiros de aço e cortiça
Triste a mais triste injustiça
Impiedosa a mais injusta mentira
Que venha ela, que me fira
Que me jogue pelas casas
Sem números nem tabuletas
Dias brancos, dias mais negros
Assim como as peças deste jogo
Caio, rebolo no fogo
Queimo-me e repito a aventura
Tudo por um pouco de verdade
Tudo por uma réstia de ternura.
Lembrando
Foste a minha metade
Foste a minha carne
Foste a quem confiei
As minhas preciosidades
Os meus inventos
O meu tesouro de latão.
Amei-te a peso de ouro
Quase larguei a corda
E me atirei das palavras abaixo.
Ao som de um contra-baixo
Entreti-me com ternura e sinceridade
Ligeiramente esquecendo
A minha felicidade.
Lutei por ti e por nós.
Fiz ouvir a minha voz
Mas atentaste ao meu coração
Não vendo eu qualquer razão.
Cadeira de Baloiço
A cadeira de baloiço
Lembra os fragmentos
De passado que guardei
Nos ventos oriundos de
Todas as placentas.
De todo os lugares infinitos
E de um qualquer lugar.
Presa àquilo que me sorriu
Encosto-me a dormitar
As mágoas aprendem a dançar
E eu aqui já tão só.
Hoje abandonei o posto
fechei com as mãos o rosto
E chorei...só por mim.
Formas de estar
Estou triste, inconsolável
Estou vadia e sem coragem
Estou cansada, corpo e alma
Estou sem vida, estou sem cor
Estou quieta, sem falar
Estou cinzenta, estou irada
Estou distante, estou em vão
Estou contigo, estou sem ti
Estou assim…perdida em mim
Crónica
Emprestaste-me um livro.
Fiz o melhor uso dele.
Sentei-me no sofá, estilo odalisca no seu harém e sorvi cada página, intercalando uma gargalhada, com outra.
Já não me recordava de uma noite passada assim.
Ainda há quem prefira a televisão, com apetência para o futebol, pois sempre pode comer tremoços e palitar os dentes, ou beber uma cerveja, como que sendo um acto de amor para com o seu corpo.
Eu gosto de futebol. Gosto de golos. Gosto do meu clube, mas essencialmente gosto de mim e aquele momento, aquela partilha entre mim e o livro, deu-me novas energias para iniciar a semana.
Começo a pensar que já não terei de ser uma mera escritora de convites de casamentos ou de cartas de amor, daquelas imponentemente ridículas, estilo: És o fogo que arde sem se ver. Vá lá não me queimes os bigodes.
Naquele cenário tranquilo, faltava-me apenas um animal de estimação, quem sabe o tão desejado São Bernardo, que chamaria de António Pedro, ou um gatinho que eu chamaria de Mix, como homenagem sentida ao Max, o gatinho de uma amiga.
Sem cão e sem gato (e nesta situação a frase "quem não tem cão caça com gato",não faria sentido), lá fui perseguindo cada folha do livro, na ânsia de saber se o Bernardo iria ficar com a Madalena ou se esta iria ficar como Totó do João. Aproveito para dizer que todos os "Jõões" são totós e digo isto, porque nunca conheci nenhum que o não fosse. Eis um caso perfeito para estudo dos nossos antropólogos. Que me perdoe um ou outro João que não seja.
No início do livro fiquei intrigada, porque a capa não era propriamente apelativa e o titulo da obra um cliché.Uma embalagem de cenouras, dizendo "Homens há muitos".Antes de alguém começar a ter ideias…as cenouras nem eram grandes e eram, de facto, cenouras. Adiante.
Eu até pensava que ia ser uma história de traição, "à la vidas reais",mas estava redondamente enganada. A história não podia ser mais simples e deu mesmo gozo ler, porque não faltou um condimento importante, o humor.
Às páginas tantas , já eu ia a meio do livro, tal qual Rosa Mota da Literatura, correndo até a atribuição da camisola amarela e aguardando o sono, que entretanto se deve ter cansado de esperar por mim e foi tomar um cafezinho ao cais de Gaia.
Foram as cinco horas melhor empregues dos últimos tempos, Ã parte das horas de sexo tântrico. Estou a brincarrrrrr!!! Já não se pode dizer nada, xiça!!
A Madalena sempre ficou com o Bernardo, que , coitado não teve grande sorte, porque também não conheço nenhuma Madalena que seja de boa rés. Mas lá foram numa viagem romântica, até Las Vegas, na esperança de encontrar o Elvis e de casarem por aquelas bandas. Sinceramente, não sei o que serámais improvável, o casamento daqueles dois ou o aparecimento do Rei do rock. Bem, com sorte aparece também o D. Sebastião e sempre conseguem um padrinho, mais velho do que a Sé de Braga, mas apetrechado de polpa e circunstância.
Resumindo e concluindo ( já te estou a ver a bocejar), adorei ler o livro,que espero devolver-te em breve e Já agora vê lá se marcas um café
(gosto muito de ti!)
Imobilidade
As rochas permanecem
Vivem de si em si
escaldando no lugar
Não movendo um só segmento
E passam-se tempos e tempos
Que as rochas não saem dali
Conversam pelos silêncios
vagueiam só em pensamentos
E amam...acredito que sim!
Amam o mar que as saúda
Em cada rebento na praia
Amam o mar e as palavras
Que ninguém mais entende.
Vê-de mundo,vê-de...como é belo
O horizonte e o longínquo
E sintam por um instante
Aquilo que eu também sinto.
sentimentos
Que fale de mim a lua
Aos porões de água salgada
Que falem de mim os espiões
Que amargam pelas estradas
Que fale de mim o sujeito
De uma frase sem sentido
Que falem de mim e me odeiem
Mas não falem dos meus amigos.
Cuspam-me palavras sangrentas
Em rima ou em prosa
Roguem pragas de piratas
Dêem-me espinhos em vez de lírios
Magoem-me com as palavras
Mais duras de se ouvir
Mas não magoem os meus amigos
Minha razão de viver
Pois não me importo que para serem felizes
Tenha eu de sofrer.
Cobardia
Falhaste.
Não cumpriste a tua promessa
E como doeu essa dor!!
Olhava-te com um olhar diferente
De todo o mundo que em mim gira
Por que condenaste à guilhotina
Um amor tão belo e puro?
Falhaste...és um inseguro
Nunca chegarás a terra firme
Com esse medo fatal
Que marinheiro és tu, afinal?
Amar tem os seus contras
É preciso saber lutar
Mas tu nem sequer foste à guerra
Preferiste retirar...
28/08/00 (10:23)
F. Pessoa
Estive a ler-te há pouquinho
Enquanto ainda havia espaço
Na imensidão da luz do quarto
Achei-te graça
Achei-te como da primeira vez...
Um pássaro livremente eterno
Um mundo como tu só
A vista para uma ilhota
Onde ninguém já atracara
Não sei quem fui
Talvez nem quem sou
mas em ti sinto saudades
Em ti vejo medos radiosos e coisas iradas
Que só tu sabes como sentiste
Não me canso de te ler
À tua alma já fora
Daquilo que foi teu corpo
Que são só palavras agora...
18/10/00 (20:35)
Poema 2
Fala de uma vez só
Deixo que me magoes de uma vez pr'a sempre
Depois desaparece
Inconsequente e absurdo
Que o teu falar seja mudo
E o meu coração seja cego!!!
(11/10/00)
Poema 1
Nada...tudo
Vento...calma
Corpo...alma
Norte...sul
Rio Douro...Rio Tejo
Eu adoro-te...não te vejo
Albatroz...andorinha
Passagem...tortura
Felicidade...amargura
Contra...a favor
Mar...terra firme
Realidade...paixão
Choradas lágrimas...descansa coração
Rumo
Ficar aqui.Esvaziar-me.
Evadir-me.Ignorar-me.
Romper o tempo e o relento
Fazer sobrar silêncios e
Ondas peculiares
Rondar os sete mares e
Desprezar tudo o que não amo
Não quero isto. Nem ficar eu quero.
Aqui não é o meu lugar.
Não sei onde pertenço.
Tanto
Por querer tanto e querer-te
Muito além das evidências
Suspiro falsas aparências
E evito falar de ti, dentro de mim
Não vá algum sentimento
Escapar-se pela boca
E eu dizer-te tudo aquilo
Que faz de mim sonhadora
E de ti um anjo bom.
24/01/02
Manhãs
Hoje acordei fora de mim.
Por entre os buracos do estore, não conseguia precisar o tempo que fazia lá fora.
Abri a persiana e a janela. O Sol ia espreitando variavelmente.
Quando me olhei ao espelho disse para mim mesma: "Ah, hoje foste tu que acordaste. Vai ser um dia daqueles!!".
Todos nós somos muitos, mais do que pensamos ser.
Hoje jurava que nao me iria suportar. Pensamentos obscuros, sentimentos alvoraçados, palavras desdobráveis e tenazes. Enganei-me!
Ao longo do dia fui expulsando aquele meu "Eu" e este "Eu" que escreve aqui, não é o mesmo que acordou hoje cedo e se esqueceu de cantarolar como é hábito.
Às vezes somos nós e não somos!
08/08/01
Dias
Há dias assim!Não chove na rua, nem em lugar nenhum ,mas chove no meu corpo, no meu pensamento e até no cheiro do perfume consigo encontrar gotículas de água.
Há dias assim! Dias em que tudo não tem graça, tudo é um buraco vazio, assustador e nada nos serve para coisa nenhuma. Dias em que nem a mais estridente gargalhada consegue padecer o desespero , ora porque a roupa já não serve, ora porque as palavras desviam-se, ora a música vacila, as notas se confundem e o silêncio é ruído ensurdecedor.
Quais manhãs sorridentes, quais noites romãnticas e inesquecíveis, quais sonhos cor-de-rosa e vento soprano...quais cintilantes estrelas , quais amores perfeitos ou achados...
Quando há dias assim, chove cupiosamente até no bolso escondido do casaco, chove até nos raios de Sol que cruzam os céus.
Há dias assim, em que até o que se escreve é humidamente chuvoso e ninguém percebe nada do que sentimos e muito menos aquilo que escrevemos.
07/08/01
Lugar
Em todos os lugares há um lugar
Um lugar mais nosso, mais luzidio
Mais sedento de sonhos e de saudades
Um lugar mais ternurento,mais fiel
Mas abrigado, mais cor pastel.
Todos os lugares são feitos
De pequenas ventanias e de pequenos
Traços que esboçamos nos dias
E nos acalmam e veneram.
Mas há um único lugar perfeito
O teu olhar...
Onde todas as belezas convergem.
O outro lado
Todos os sentidos perdem os sentidos
Pelo menos uma vez na vida
Quando o Sol nasce mais forte
E a Lua nasce mais selvagem.
Todos temos, um dia, de escolher
Entre o certo e a felicidade...
De um amigo...para mim
Vejo um objecto inerte e metálico de onde me encontro e como fundo, o mar segredado pelo nevoeiro. Os carros sucedem-se, luminosos, como que tentando transparecer o seu destino,mas sem sorte , pois continuam a sua marcha, tão questionável, quanto artificial.
Volto a encarar o tal objecto metálico, sózinho, indiferente aos tempos.
O encarnado contrasta, quase violentamente pelo cená¡rio. Identifico a mensagem que me transmite.
Páro??De quê?De observar a beleza melancólica do cenário?Ou simplesmente transbordar de alegria por encontrar o anjo que se senta ao meu lado? Puro,místico, belo de todas as maneiras, inimitável em todas as emoções e sentimentos, cuja beleza, interior e exterior, me afagam os sentidos.
Para qualquer um deles, Nunca! -
Leo
(obrigada pelo carinho e amizade)
Estado de Ser
Sentir-me perdida
Sentir-me encontrada
Sentir-me Pessoa
Sentir-me amada
Sentir-me feliz
Num mar de lamentos
Sentir-me com a alma
Despida ao relento
Sentir-me tão longe
Tão longe e tão só
Sentir-me gotícula
Pedaço de paz
Na minha existência
E assim na escrita
Sinto o que sinto
Vida!!!
Bendita!!maldita
«É preciso enfrentar a noite para encontrar, ainda, o alvorecer»
Li esta frase numa revista como poucas, daquelas que nos aguçam a vontade de rebeldarmo-nos e travarmos lutas impiedosas com a almofada.
Fala de mar, de amigos, de ciclos vitais, de limites e ilimitalidades.
Num dia enfadonho como o de hoje, sabe bem sentir o paladar rústicos desta escrita, de deambuladores.
Sinto-me feliz. Eis a razão bruta e prematura, pela qual não pincelo palavras há algum tempo. Mas a verdade é que a minha alma necessita de intensos mergulhos no nada, na divagação pura, nos exageros espirituais. Daí se alimenta aquilo que sou, daí extraio a minha essência.
Preciso de vestir, de novo, a capa que me cobria do mundo e me defendia das hostilidades e despia do materialismo.
Preciso de um espaço no tempo para encontrar o outro "eu" que se esconde no meu corpo.
Tenho tantas manhãs para invocar, tantas noites para acalmar!!
Por mim, hoje, deitava-me à sombra de uma árvore, a sentir a brisa tocar tudo ao meu redor e a ler um bom livro.
Parece, porém, que terei de continuar por aqui, por ora, no comum mundo dos demais!!
Junho/03
COMENTÁRIOS
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Mulher
A mulher é luta
A mulher é cor suave
Quadro de Miró
A mulher é força e quebradiças ondas
A mulher é o oposto
O orgulho, a vida dentro da vida
A mulher é pedra e é seda
É um mar de ternura e uma planície íngreme e nublada
A mulher é silêncio e canto de sereia
A mulher é brisa que se propaga
História breve,chuva de Verão
Fogo que não se extingue
E os dias são nossos
As noites são nobres
E a mulher, um outro mundo
Sobejamente feito de pura poesia
Breve
Num instante de amor
E de saudades de ti
Remo sob o meu corpo
Sinto-te em cada linha em que tocaste
E por muito que me amasses
Nunca poderia falar de ti
A não ser em poema
Porque foste muita coisa
Mas nada que valesse a pena
Quero Saber
Quero saber como andas
Como comandas o olhar
Quero saber como cantas
Enaltecendo o estrelar
Quero saber como sentes
O que por mim queres sentir
Quero saber onde estás
E também onde queres ir
Quero saber como beijas
A essência do teu Ser
Quero muito
Quero mesmo saber
Quem és para além do teu nome
Para além da transparência
Além do mar e das fronteiras
Equidistante inocência
Quero saber de ti
E saber porque sorrio
Quando também sorris.
(escrito a 02/04/01 ás 13:02)
Instante
E és tu e eu e tu e tu
E é como se em mim nascesses tu
E então tu, no meu coração adormecesses.
Zangada, eu?! Não...
Posso contar-te um segredo?
Adoro quando fazes isso!
Opostos
Ás vezes sonho. Ás vezes penso.
São coisas distintas
Tão, distintas , tão distintas
Como mar e terra
Como água e sol.
Assim é a vida
Passando por nós, pelo vento
Pela nostalgia, por si própria.
Daria o mundo para amar
Mas nada é tão simples
Simples é voar. Simples é o tempo
Eu não sou simples.
Sou uma equação complexa
Alquimia elaborada
Sonho, penso, amo e sinto.
Ás vezes é bom sonhar
Outras vezes pensar faz falta
Nunca saberemos, ao certo
Do que é que temos sede
Porque cavalgamos teimosamente
Em direcção à luz.
Pode ser que um dia destes
Um dia, sem eu contar
Num destes ininteligíveis poemas
Descubra que à noite também há sol.
Há algum tempo...
Há algum tempo que não escrevo. Antes escrevia em qualquer lugar comum, numa qualquer folha de papel, acerca da vida, da rua, do tempo, do nada e do tudo.
O “antesâ€� já lá vai há algum tempo e confesso que tenho algumas saudades.
Hoje leio e escrevo pouco, penso muito, porém, e assim faço renascer de alguma forma, as ondas encrespadas, que alimentavam o meu Ser.
Julgo ter perdido o jeito…fiquei longe demais das minhas palavras e atraiçoei-me ao querer fingir que poderia passar sem elas. Não consigo, são parte de mim.
Esteja eu onde estiver, a vontade de escrever e de deixar extravasar a imaginação, é mais forte do que Eu e este Eu que sou arrasa qualquer outro Eu que seja .Confuso?? Não. Apenas sobejamente sentido.
Recordo as horas que passei sentada na mesa do café, à espera de uma amiga que todos os dias chegava atrasada, aniquilando guardanapos de papel, dando-lhes um outro sentido, que não o uniforme. Guardava-os com todo o carinho na minha mochila e ali permaneciam até os resguardar na minha caixinha de cartão, completamente abarrotada.
No papel podia ser quem eu quisesse, estava segura, tantas vezes infeliz e desolada pela falta do amor. E estes dias repetiam-se sem final previsto.
Quando a minha amiga chegava, ainda mergulhava nas palavras, sem reparar , sequer, no que me rodeava, isto porque a vergonha de estar ali sozinha era maior do que qualquer ilha do Pacífico.
Assim viajava, rebolava pelo mundo, sem saber se o caminho certo seria a Norte ou a Sul. Sabia, no entanto, a genuinidade das minhas palavras e isso era o bastante para me sentir alguém.
Longos meses quedaram até hoje, eternos meses de tentativas vãs de não me entregar de novo a esta forma profunda de mostrar emoções. Estou aqui de novo, talvez tão magoada como antes, talvez com menos esperança e ilusão, mas com a mesma vontade imensa de sonhar.
Do sonho começou isto, ao sonho voltei, como irá terminar??
NU
Não sei de quantas almas somos feitos
De quantas palavras precisamos para descobrir a fantasia
O mundo é um lugar espesso
De onde brotam saudades e flores, crianças e dias novos
Onde todos somos tudo e o que somos nada parece.
A vida é um chocolate amargo, em forma de doce bombom
E quem não tem medo de viver, arrisca-se a sofrer mais
Porque quem fica escondido, tomado por um véu de silêncio
Anda pelo mundo, sem saber Ser
E não ama verdadeiramente, e não sente verdadeiramente
Porque tudo é um teatro aberto, a quem quiser assistir
Mas por trás da cortina ficam as lágrimas de fingir.
Não finjo ser feliz quando não sou
Não finjo estar triste quando não estou
A única coisa que finjo
É gostar menos de ti do que gosto