Quero agradecer a todos os visitantes que têm contribuido para que este blog
seja um lugar muito especial para mim e que têm partilhado comigo a paixão
que é a escrita.
Um enorme abraço, do fundo do coração,
Nádia
Esboços
Sou velho, cansado, extremoso
Li nos meus templos quase toda a rotina
Passeei por muros e castelos
derrubei corações, alteres e esquinas
Comi do prato da fome
Cobri-me de pele flácida e indolor
Vi nascer o sol, molhar-se a chuva
Vi a caverna de gelo onde mora a dor
Contei paralelos e velas
No meio da rua estéril e nublada
Arregacei o meu chapéu sem fundo
Vi Veneza ser julgada
Aconcheguei-me bem longe das labaredas
Engoli o respirar da natureza
Bebi da terra do chão
Dormi na cama da pobreza
Hoje sou velho, pincel em reforma
Cujos bigodes já só se sabem lamentar
Mas guardo no peito os quadros que, à alma
Nem a morte irá roubar
(2000)
Racionalidades do coração
Descobri que nada sei sobre o amor
Descobri que nada sei do beijo sem tempo na boca de alguém
Descobri que pouco sei do que sinto num abraço
Descobri que pouco sei do sofrimento de não me prender no teu regaço
Descobri que tentar descobrir os mistérios do amor é tempo perdido
Tal como o é dialogar com as cortinas de um postigo
Amo-te e ao teu amor
Ao teu mundinho celeste
Amo-te por venerar o teu jeito
Tão macio e tão agreste
Ao olhar-te de novo nos olhos
Descobri a estrela que me acendeu o coração
Amo-te por seres tu somente
E esta é a minha única razão.
(2000)
Ciclo
…mais uma lágrima.
Já lhes perdi o rasto
Lamento e tento, contrasto
Que as palavras que me traem
Não me ceguem de vez
Outras lágrimas virão
Por todos os motivos do mundo
E todos eles em vão
Orientação
Quando é que serás feliz e capaz de caminhar nas estrelas e falar por tua voz?
Quando é que vais ter força e garra para trepar pelos telhados e para apertar os cordões?
Quando é que a vida vai parecer-te uma marioneta e vai fazer-te rir desmesuradamente?
Quando é que vais saber ler nos meus olhos e perceber o quanto gosto de ti?
Tens teu tempo e teu parecer
Tens tua vontade e tua teimosia
Tens sensatez e rebeldia
Tens em ti nomes de ruas
E passados que já não te pertencem.
Tens as minhas saudades e os meus abraços
Rodopiantes e sinceros
Falta-te a luz do sol e o beber da água
O mapa do tesouro dos piratas de outros tempos
Excedem-se em ti as lamúrias e os muros transparentes
Quando é que vais ter força?
Quando…é a ausência da certeza e permanência do vazio.
Certeza do meu amor.
Traços
Impetuosa vontade
Esta de me outrar
Ser gente
Sem porém ter de sentir
Tudo aquilo que vem e vai
Por tudo aquilo que vem e vai
Por tudo aquilo que não veio
E sonhei que viesse
Magoam-me no tempo
Sem intervalo, sem descanso
E o coração é manso
Cala as palavras suas
E desloca-se nas ruas
Com pesar e sofrimento
Preferindo calar-se a si
Do que mandar calar o pensamento.
Assim não conhece
O que desconhecido é
Aquilo a que todos, a quem pergunta
Respondem que não se vê…
Venha o diabo e escolha
Eu juro que não sabia se havia de rir ou de insultar severamente o árbitro que arbitrou a meia final entre o FCP e o Deportivo. Nunca vi tamanha incompetência junta, a não ser claro, na nossa assembleia da república, cochilando por entre os discursos dos vários partidos.
Presumo que terá passado pela cabeça dos jogadores, que toda aquela exibição era para os “apanhados” ou um castigo divino, porque ninguém merece algo assim.
As faltas foram surgindo, aumentando de intensidade, porque sendo um jogo cirúrgico, nenhuma das equipas queria arriscar demais. Assim, assistimos a um encontro basicamente táctico, onde a defesa do Deportivo, defendendo em bloco, quase não deixou criar lances de perigo.
O árbitro decidiu então ser a figura do jogo, permitindo excessos, assinalando foras-de-jogo inexistentes e deixando passar outros que até as toupeiras conseguiam ver. Imaginem uma toupeira de bandeira na mão e calções…já está?? Pronto, sempre fazia melhor figura do que os auxiliares deste jogo.
A expulsão do Jorge Andrade foi o culminar de toda a asneirada. Apesar de concordar que nenhum árbitro tem de saber quem é amigo de quem, continuo a achar que houve excesso de zelo nessa situação. Qualquer pessoa consegue distinguir um acto de agressão, de um acto de brincadeira. Por expulsar ficou Mauro Silva, que deve ter tido umas aulinhas intensivas com o plantel do Boavista, porque deu “porradinha de criar bicho”.
Para finalizar em beleza, o senhor árbitro não atribuiu o castigo máximo ao Deportivo, por falta dentro da área, sobre o jogador do Porto, Marcos Ferreira.
Bem , se o árbitro alemão saiu do estádio inteirinho foi puro milagre ! Confesso que aguardo ansiosamente pelo próximo programa “Levanta-te e ri”, porque tenho quase a certeza que ele vai lá estar, mais hilariante do que nunca.
Ainda falamos nós nos árbitros portugueses. Venha o diabo e escolha!Posso estar enganada, mas não me recordo de um árbitro nacional ter feito um trabalho tão vergonhoso e muito menos numa competição de alto gabarito, como a Liga dos Campeões.
Venha agora a segunda mão para o “tira-teimas” e não é por eu ser portista ferranha, “ferrada das quatro patas”, mas espero que o FCP vença e convença, porque Portugal também fica a ganhar com isto. Bem, quer dizer…também tem um inconveniente…com tanto sucesso, os fundamentalistas iraquianos ficarão curiosos por saber onde fica Portugal. Pode ser que ,entretanto, se esgotem os mapas e continuem a pensar que somos provincianos espanhóis.
Daqui a quinze dias conversamos…
Uma questão de massa
Grxxxxxrrrrgggxxxgggx.98.9.Sintonizada.
Noticia do dia: Portugal é o país mais endividado da Europa. Olha a grande novidade!
A situação financeira dos bolsos portugueses vai de mal a pior. As disparidades salariais cada vez mais acentuadas e a falta de postos de trabalho têm diminuído o poder de compra, assim como a esperança de um futuro melhor.
Há situações que me deixam completamente arrevessada, como é o caso dos jogadores de futebol ganharem num mês, aquilo que 99% da população, noutras actividades, não ganha numa vida inteira. A acrescer a esta barbaridade, ainda há quem considere uma calamidade terem de pagar impostos. Ora, já agora, vamos fazer uma “vaquinha” e pagar-lhes as férias nas ilhas Fidji e o combustível dos aviões particulares.
Não pensem, caros leitores, que sou uma feminista extremista, apologista das agulhas e ponto cruz e contra os desportos radicais e o futebol. Nada disso. Eu gosto muito de futebol, mas distingo os cenários. Uma coisa é gostar de futebol , outra coisa é compactuar com o absurdo de pagar vencimentos astronómicos a uns tipos que correm atrás de uma bola e que, ainda por cima fazem o que gostam, o que acontece a uma ínfima parte da nossa população. Isto leva a que muita gente se lamente por não ter nascido com uma “pilinha” e jeitinho para dar uns toques.
À parte disto , vai prevalecendo a esperança de “sair a sorte grande” , como aconteceu este passado sábado. Era quem mais corria para os quiosques para registar o seu boletim de totoloto e nem valia a pena tentar imaginar aquela quantidade de dinheiro, porque é bem mais fácil contar carneirinhos ao adormecer. Sete biliões de euros é dinheiro a perder de vista. Imaginem a piscina do tio Patinhas…já é bom, sim, agora, imaginem essa piscina a multiplicar por mais umas quantas. É de trocar os olhos, não é?
Para contentamento, lá vamos tendo os dias de sol, as férias no quintal, na mini-piscina insuflável e as praias que ao fim-de-semana, em época balnear, mais parecem as Finanças, em prazo de entrega de IRS.: «Ora, com licença, desculpe tê-lo calcado. Estamos lá quase, mais uns desvios, cuidado com a toalha…ups (quase tirava um biquini a uma senhora), cuidado com os castelos de areia e pronto….finalmente chegamos. Temos espaço para 1 toalha, com jeito cabemos os quatro e como demoramos uma hora a conseguir arranjar “estacionamento”, daqui a 10 minutos temos de apanhar o autocarro de regresso a casa.» Férias para recuperar das férias, precisam-se!!!
Por estas e por outras, até percebo o Caio, aquele personagem hilariante do “Sai de Baixo”, que tinha pavor à pobreza. Em vez de champanhe bebemos limonada, em vez de caviar comemos pão com manteiga e só não andamos em cuecas, porque o Jumbo é imbatível nos preços e as famílias numerosas vão deixando de herança a roupa, de uns para os outros.
Mas de mal o menos, melhor pobre de algibeira, do que pobre de espírito. O pobre de algibeira sempre consegue encontrar pequenos nadas e transformá-los em felicidade e alegria, o pobre de espírito vive amargurado e nunca chega a entender o valor da sua existência, para além de todo o materialismo.
Contentemo-nos com o Sol, que para além de ser de borla, transmite sensações únicas e não há dinheiro que pague tanta beleza em tão simples estrela.
A máquina de café avariou!
Sábio povo quando diz que há dias em que mais valia não sair da cama, não porque o horóscopo do dia assim o sugere, mas porque há alturas em que parece que uma nuvenzinha negra nos acompanha para todo o lado.
Aconteceu há umas semanas atrás. Acordei muito bem disposto, saltei da cama logo que o despertador tocou e fui tomar um duche.
Uns vinte minutos depois já eu estava aprumadinho para apresentar-me à sociedade.
Fui até à cozinha para beber o meu habitual café e após algumas tentativas forjadas, percebi que a máquina do café tinha avariado (agora ficava bem aqueles sons de suspense dos filmes de terror, eh eh).
Depois de lhe ter dado uns pontapezitos, para espanto meu, continuou sem funcionar. Bem, pelo menos tentei. Quando a minha professora de matemática me fazia isso, no 5ºano, bem que resultava. Adiante.
Comecei a lembrar-me de umas coisas que tinha lido numa revista feminina, não que eu leia aquelas porcarias, veio-me mesmo parar às mão, aliás, fui obrigado por um terrorista contratado. "As máquinas também sentem", dizia um artigo, tudo menos brilhante. Eu ri-me às bandeiras despregadas, mas agora começo a não achar graça e a ponderar a veracidade da frase.
Coloquei a hipótese da minha máquina de café ser mais uma sentimentalista neurótica, sócia de um clube de solteironas em fase de histerismo e que adora que lhe enviem flores.
De acordo com o parágrafo cinco, ajoelhei-me perante a máquina e fui dizendo coisas simpáticas: bem, quer dizer, nunca vi máquina tão bonita no mercado e o café é realmente saboroso, a sério!! Um dia destes podemos ir jantar fora , ou assim, onde tu quiseres e depois levo-te até à beira-mar… mas para isso vais ter de me dar uma chávena de café...(continuei),tu maquinazinha cremosa e teimosa que estás a levar-me a fazer figuras ridículas, trabalha filha da p***!
Será que percebe português?? Deixa ir ver ao manual...
Começava a sentir o fumo a esvair-se pelas orelhas e ela ali, a olhar-me, como que a sorrir ironicamente e a pensar:”hoje não me apetece, dói-me a cabeça”- maldita feminista.
Andava eu a girar pela casa, feito barata-tonta, quando o meu chefe me ligou, para me lembrar que estava três quartos de hora atrasado, para uma reunião importante e eu, estupidamente, lá fui dizendo:” não funciona chefe, eu nem acredito nisto!! Ainda ontem estava perfeitamente bem…estou a dar em louco!!”.
Num mal entendido foi no que deu a conversa e percebi isso quando, do outro lado da linha, o homem me sussurrou: “Tem calma, acontece a todos. Claro que eu não tenho desses problemas, porque sou forte como um touro, mas acredita que é muito comum. Passa numa farmácia. Vais ver que não é nada que uns comprimidinhos não resolvam, if you know what i mean”- e desligou às gargalhadas. Só me faltava aquela!
Numa coisa tinha razão, na parte do touro! Eh eh, nem fazia ideia do que trazia hospedado na testa.
Foi nestes pequenos segundos de descontracção, que surgiu-me, bem à frente dos olhos, a dimensão da estupidez humana, a razão pela qual as mulheres, por vezes, nos apelidam simpaticamente de “nhurros” e mais uma série de coisas e com toda a legitimidade…não tinha ligado a ficha à tomada.
A vontade de tomar café entretanto passou, cheguei atrasado ao trabalho e só me apetecia enfiar a cabeça no soalho, com tanta vergonha. Pior mesmo, foi quando cheguei ao escritório e dei com todos a olharem para mim como se eu tivesse colado uma pastilha elástica no cabelo ou feito trancinhas. Nãoooooooo- gritava o meu consciente. O chefe andou a espalhar a nossa conversa.
Bem, se querem saber como terminou a história e como para bom entendedor meia palavra basta, o chefe anda muito simpático, de meia em meia-hora vai ao parque de estacionamento ver o estado de saúde do seu Mercedes e cada vez que ouve a música “everybody hurts (sometimes)” , lembra-se de mim.
Moral da história minha gente: nunca ter máquina de café.
Apenas mais um dia
Deixei a janela aberta, por onde conseguia destrinçar as tonalidades de raios de sol.
Não te lembraste do dia. Não acordaste com a sensação de ser um dia diferente dos outros, infelizmente eu também não. Nunca te lembras.
Um vazio inexplicável instalou-se em mim. Como se o estivesse a sentir pela primeira vez, que parva!
É sempre assim, não sei porque é que ainda fico triste e me aconchego em mim mesma, num canto imaginável, até outro dia acontecer e eu fingir que não sei sentir e recusar-me a aprender.
A entrega é sempre algo doloroso, que só é entendida por quem realmente, alguma vez na sua vivência, se entregou sem reservas e sem medos.
Tantas vezes disse que seria melhor não sentir…apesar de saber, que ao não sentir coisas más, também não sentiria as boas e a minha existência, pouco mais seria, do que uma manhã, uma tarde e um cair da noite. Talvez não fosse mais feliz do que sou hoje, mas talvez não fosse menos. Nenhuma voz irá segredar-me como seria. Ficarei sem saber.
Vou fechar a janela e os olhos. Livrar-me dos pensamentos e deixar-me cair de bruços no tempo.
Amanhã já não terá importância…mas terá sempre.
Maravilhoso Mundo Novo
Não tenho como expressar isto que sinto sem o banalizar.
Penso no tamanho do seu narizinho, no toque frágil dos seus deditos, no sorriso inocente e no choro, quase sempre uma incógnita.
Como será ter um Ser dentro de nós, sentindo o que sentimos, a ansiedade, a tristeza, a alegria. Como será que vai crescendo, tomando atenção ao mundo, escondido na barriguinha da mãe, que o protege por 36 semanas?
Vou ser madrinha de um bebé e isto é como conseguir captar todas as formas felizes de arte, é como conseguir a magia única de tocar nas nuvens, porque vou poder ter um lugar especial na vida de alguém.
Espero ser tão importante para essa criança, tal como a minha madrinha tem sido para mim. Espero ser amada com a mesma intensidade com que amo a minha madrinha, porque ser-se madrinha é poder ser tudo: amiga, irmã, mãe, confidente.
Imagino-me sentada no sofá, segurando-o/a no meu colo, assistindo a uma sessão de desenhos animados, tipo Timon e Pumba, cantando a música do genérico: “hakuna matata é tão fácil dizer…” . Já consigo ver-me atrás de um teatro de pano, inventando histórias de encantar, com fantoches bailando harmoniosamente, defronte à luz transcendente dos seus olhos.
Entro e saio das lojas em pleno êxtase …tantas coisas lindas!! Apetece comprar tudo: as roupinhas, os brinquedos, os baloiços em madeira, os livros de colorir. Mas é tão cedo ainda! É um mundo à parte, maravilhosamente único, este dos pequenotes.
Apesar de não estar preparada para ser mãe, sinto que poderei ser uma boa madrinha e por isto posso agradecer à minha, que me acompanhou até agora, etapa após etapa e me mostrou o mundo, sempre “de mão dada comigo”, para qualquer eventualidade.
Há pessoas na nossa vida, que são, simplesmente insubstituíveis, pela forma irrepreensível como viajaram connosco pelo tempo e por nunca nos terem abandonado, em momento algum.
Para ti afilhado/a, terei sempre um abraço forte e palavras sensatas, serei uma ilha feita de chocolate branco e gelados de baunilha e terei sempre tempo para te ouvir e brincar contigo. Que sejas bem-vindo a um novo mundo, coberto de novidades, boas e más, e também repleto de desafios. Isto é o que fará com que todo o processo de vida valha a pena, desde aquele momento em que alguém nos dá uma palmadinha no rabo e choramos pela primeira vez.
É o início de tudo.
Restos
Deixa-me ver além
da vidraça que ultrapassa
As paredes do teu muro
Deixa-me escutar o barulho
Do teu silêncio sem voz
Deixa-me lembrar-me de ti
E esquecer-me de nós
(já nada resta, lamento...)
10/06/01