Quero agradecer a todos os visitantes que têm contribuido para que este blog
seja um lugar muito especial para mim e que têm partilhado comigo a paixão
que é a escrita.
Um enorme abraço, do fundo do coração,
Nádia
Exaustão
Estou cansada de ser eu
De não ter onde calhar
Ver o mundo a olhar
Um outro que desconheço
Quando quase me esqueço
E me forço a ser alguém.
Fico-me pela mármore fria
À margem de todas as virtudes
Tudo do que sou feita é inútil
E não sei como mudar
Talvez um génio me pinte num quadro
Para expor à cabeceira
E permaneça à minha beira
E me aconchegue a dormir.
Estou num lugar sem saber onde
Num tapete movediço, calculista
E o eu que sou não me diz nada
Fujo de mim e ninguém sabe
Um lugar chamado vida
Começo a perceber a multidão de particularidades que, uma pessoa pode encerrar, no seu todo.
Não é fácil descodificarmos todas as mensagens, sejam elas palavras, ditas ou escritas, ou simplesmente silêncio.
Antes acreditava que era essencial, para um saudável entendimento, cruzarem-se objectivos e personalidades. Entretanto, criei o sonho de que basta gostarmos muito de alguém para todo o universo se iluminar. Mas nem sempre é fácil.
Nesta linha de pensamento tudo parece claro e transparente. Não o é. Nesta fase sucumbem todas as teorias acerca de relações humanas. Somos demasiadamente complexos para sermos analisados a olho nu. O que serve perfeitamente para mim, poderá nada significar para outro e o amor, nesta encruzilhada de individualidades, tem um papel primordial?ou não. Esta é a desilusão total!
Por vezes, avançamos de cabeça para baixo, escutando vozes maviosas advindo do nosso interior, seguimos ?as migalhas de pão? caídas pelo caminho e perseguimos um sonho, o sonho de ser feliz. Terá alguém chegado ao final da caminhada e terá encontrado um arco-íris reflorescente?
Esta experiência será sempre a tomada de consciência de alguma coisa, para o bom e para o mau. Cabe a nós interiorizar que a fantasia e a realidade têm apenas alguns vértices em comum, tal como o sol e a lua, ambos alumiam a Terra, mas os seus mundos são completamente distintos.
Todas as vezes que decidirmos seguir essas migalhas, em busca de algo maior, corremos o risco de nos magoarmos e outra vez?e outra vez?e outra vez.
Há quem nem pense no risco e continue a sonhar, há quem nem sequer adormeça para controlar as suas emoções.
Isto vai acontecer sempre, porque não somos feitos de matéria incorruptível , somos feitos de sentimentos, que nos ultrapassam a cada instante de vida.
Farsas
Hoje tenho algo para contar, não ficção , mas algo real, para o que isso tem de bom e para o que tem de mau.
Quando , de manhã, cheguei ao trabalho, uma colega chamou-me à atenção que da vidraça podia ver uma gaivota bebé que caiu enquanto voava, partindo a asa direita.
Era fácil perceber que não passava de uma jovem ave, pelo aspecto da penugem e pelo seu pequeno porte.
Não podíamos deixar aquele pequenino Ser esquecido no passeio do parque de estacionamento, por isso, contactei algumas instituições.
Comecei pela Fapas - Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, uma vez que , como o nome indica, existe para proteger animais selvagens, que seria o caso. Contudo, fui informada que nada poderiam fazer e que deveria contactar o Parque Biológico de Gaia. Assim fiz.
Apercebi-me que não iria ser fácil, quando do Parque Biológico me indicaram o numero de um senhor, supostamente capaz de se deslocar e levar a gaivota para ser tratada. Anotei o numero e o nome e logo de seguida efectuei a chamada.
Expliquei toda a situação, inclusivé, que nenhum de nós poderia sair do emprego para levar a ave ao veterinário mais próximo e eu não tinha carro para a deslocação. O senhor que, supostamente, é incumbido de socorrer animais feridos, indicou-me que não se encontrava no Porto e que a única coisa plausível a fazer, seria contactar a PSP, convencendo os agentes a virem buscar a gaivota bebé e levarem-na ao Parque Biológico.
Evidentemente, ninguém contactou a PSP, porque iríamos ser alvo de chacota.
A esta altura já eu punha as mãos à cabeça, porque não esperava que as próprias instituições, criadas para o efeito, ?empurrassem? umas para as outras a responsabilidade de salvar uma criatura selvagem, impossibilitada de sair do local onde caiu.
A colega de que falei no início, contactou de novo o Parque Biológico. Neste contacto fomos informadas que é habitual o tal senhor, cuja função, reforço, seria fazer este tipo de salvamentos, dizer que não está na cidade ou marcar e não aparecer.
Para terminar, contactei o Jardim Zoológico da Maia. A pessoa que me atendeu, indicou-me que não seria a mais apropriada para me informar e que contactariam mais tarde para tentar ajudar. Pois?isto passou-se ao meio-dia e meio. São três da tarde e até agora ninguém ligou.
Por favor, isto é um escândalo! Afinal , para que existem essas instituições? Para que servem afinal? Será que nunca passaremos da fase dos Paleolíticos em situações como estas????
A esta hora a gaivota já está a ser tratada, graças a dois colegas de trabalho, que levaram a bebé ao Parque Biológico. Quem deveria , realmente fazer alguma coisa, despachou o assunto e nada fez para nos orientar.
Pena que esta situação, bem como outras do mesmo padrão, não sejam divulgadas à opinião pública, de forma a tomarmos ,todos ,consciência do país em que vivemos.
Caminhos
É tão difícil cruzar olhares
Quando temos tão pouco de vão
E magoa-nos a brisa marinha
E os raios de sol matinais.
Queremos tanto falar
Mas as palavras são letais.
Nem sempre vencemos as batalhas
Que nós próprios sustentamos
Porque conhecemo-nos demais
Porque conhecemo-nos tão pouco
E apesar de sentirmos o duro
Puro e cru do chão onde caímos
Facilmente sentimos
Que a queda faz parte de tudo.
Papel rasgado e surdo
Aqueles em que exprimimos
A dor ?uma qualquer dor
Porque nenhuma é igual.
Inexorável será a espera
De um olhar feito de risos
E mantos de estrelas sós
Que não nos faça chorar
Seja somente, parte de nós
Recusa
Evacuo-me de lugares estranhos, outrora apelativos e desejados.
Apaziguo as sensações de quem perdeu alguma coisa no desnorte da pressa
Submersa, rude espera, insensatez de um sonhador desconhecido
Não é fácil entender sentimentos, nem fechá-los num templo
Num tempo, para que não fujam nunca.
Manhã, pareces longe, pareces perto
Fazes-me sentir deserto, inútil tempestade de areia
Nos teus olhos nada leio.
Abdico do silêncio, da acalmia, da capa dura de um livro
Por um cobertor de algodão
Onde possamos sentar a olhar as estrelas e a sonhar de mão dada
Mas este tanto, não é nada, dissolve-se como café
E o sabor amargo da derrota permanece intacto
Como verdade que é.
Pureza
Sorrir tornou-se um acto pouco comum.
A gargalhada estridente tonou-se brejeira, em puro desuso, como calças de bombazina e sapatinho de berloque.
O que actualmente é "muito fashion" é deambular pela rua de cara fechada, desviar o olhar como quem não quer a coisa e deixar escapar um bom dia britânico: recto, frio, objectivo.
Ao redor avistamos prédios sisudos, cada vez mais antracite e sombrios, cujas janelas escondem uma tristeza nefasta.
O cimento aniquila o verde das árvores em época primaveril e a dança da natureza confunde-se com a voz gritante das buzinas.
Perante este quadro verdadeiramente opaco da realidade em que vivemos, será que vale mesmo a pena exorcizarmos o sorriso, fingirmos que temos raízes de pedra, tal qual medusa das lendas gregas?
Se apetecer rir, se apetecer rebolar no chão até às lágrimas, perante uma multidão de gente desconhecida, pois então que assim seja. O mundo precisa de espontaneidade e de instintos genuínos, que cubram de cor e fantasia os dias pérfidos.
Não basta existir para ser feliz?encaremos isto como um desafio, uma prova de existência muito para além do materialismo.
Hoje, eu própria estou enfadonha, descontente, porque o sol brilha lá fora, mas aqui dentro, bem no fundo, não consigo senti-lo. Para mim serve também esta dissertação. Parece um pouco infantil, mas é disso mesmo que necessitamos, de quando em vez, de recuarmos uns anos e tomarmos consciência de que , brincar também faz parte da nossa missão no mundo.