Sorrir tornou-se um acto pouco comum.
A gargalhada estridente tonou-se brejeira, em puro desuso, como calças de bombazina e sapatinho de berloque.
O que actualmente é "muito fashion" é deambular pela rua de cara fechada, desviar o olhar como quem não quer a coisa e deixar escapar um bom dia britânico: recto, frio, objectivo.
Ao redor avistamos prédios sisudos, cada vez mais antracite e sombrios, cujas janelas escondem uma tristeza nefasta.
O cimento aniquila o verde das árvores em época primaveril e a dança da natureza confunde-se com a voz gritante das buzinas.
Perante este quadro verdadeiramente opaco da realidade em que vivemos, será que vale mesmo a pena exorcizarmos o sorriso, fingirmos que temos raízes de pedra, tal qual medusa das lendas gregas?
Se apetecer rir, se apetecer rebolar no chão até às lágrimas, perante uma multidão de gente desconhecida, pois então que assim seja. O mundo precisa de espontaneidade e de instintos genuínos, que cubram de cor e fantasia os dias pérfidos.
Não basta existir para ser feliz?encaremos isto como um desafio, uma prova de existência muito para além do materialismo.
Hoje, eu própria estou enfadonha, descontente, porque o sol brilha lá fora, mas aqui dentro, bem no fundo, não consigo senti-lo. Para mim serve também esta dissertação. Parece um pouco infantil, mas é disso mesmo que necessitamos, de quando em vez, de recuarmos uns anos e tomarmos consciência de que , brincar também faz parte da nossa missão no mundo.