Blog de poesia da Nádia.

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Quero agradecer a todos os visitantes que têm contribuido para que este blog seja um lugar muito especial para mim e que têm partilhado comigo a paixão que é a escrita. Um enorme abraço, do fundo do coração,
Nádia

Quanto tempo é um minuto? 

Abrem-se as pálpebras dos céus
Rosna a voz matinal do ardina
Um nó de gravata vai-se formado
Enquanto discutem as esquinas

As ruas sem gente são agora caos
Um veleiro antigo castigando os mares
Ambíguos lábios sussurram com sono
Palavras que partem, se juntam aos pares

O ponteiro do despertador vai arriscando-se
Temperando as arrobas, fingindo a pressa
Acordam desalentos nas bermas molhadas
Que um minuto passou nestas áridas estradas

E em sessenta segundos o mundo gira veloz
Sorrisos se fomentam, lágrimas se descobrem
Beijos se inventam e se trocam em tempo curto
Mas afinal, afinal, quanto tempo é um minuto?



Torturas do passado 

Maldita voz que se propaga
Nos meus ouvidos sedentos de silêncio
Pareces querer mandar no que sinto
Até naquilo que penso
E de mais a mais, quase consegues
Porque em branco ficam os meus sentidos
E assim transformaste a nossa relação
Num mero assunto de arquivo
Que acredite quem quiser
Mas tudo será igual
Enquanto o dia nascer.


Ruínas 

Desabou o meu mundo e todos os ossos do corpo que já nao sinto
Fragmentou-se o tempo e a vontade de cuidar do mundo.
Faz frio, mas não importa, quase não sinto
As pessoas passam, olham, humilham e passeiam
Reconhecerão um dia bom? Quase se esquecem da vida.
Os livros escondem-se pelos bancos de jardim onde quase todos param
A necessidade de servirem para alguma coisa pouco satisfaz
Tantas paisagens divergentes, tantas angústias iguais.
Para quem ama qualquer coisa , por vezes, viver é ir longe demais



Fernando Pessoa  

Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu



Se houvesse um lugar onde sentar quando estou desamparada, seria nas palavras deste poeta genuíno.