As noites são longas
Olho a parede expressiva
O escuro por entre a cortina
O vazio que se me escapa
Sento-me por entre os lençóis
Desejando que não fosse noite
Mas o aclarar do dia
Ainda tem muito para esperar.
E viro-me para o outro lado
Na tentativa forjada de não sonhar
No pensamento cabem todos os medos
Todas as angústias de que padeço
Como se não tivesse fim.
- Ai de mim- penso baixinho
Como fazem os poetas
Na frágil intenção de serem discretos.
Sabor amargo, suor frio
Nem a calma imagem do rio
Transtorna os pesadelos
Contraste feroz com o belo
Dissipam a minha vontade
De sossegar os sentidos.
A parede moveu-se.
O escuro vai rendendo-se
À luz que quer sorver o dia
E os meus olhos negros já cansados
Vão baixando pouco-a-pouco
Num mundo doce de fadas.
Querendo, amando , ficando
Sabendo, doendo, permaneço.