Virar a página numa manhã chuvosa
Enquanto tropeçamos nos próprios pés
E damos guarida a medos irrefutáveis
É a tarefa mais difícil do universo.
Atravessamos ruas e caminhos
Delineados por rochas homogéneas e amorfas
Onde os sentidos se distinguem
Por não saberem não sentir.
Levamos sempre uma pena no bolso
Para escrevermo algo mais do que dor
Mas a chuva é tão intensa
Que todos os telhados cedem
Não há fogueira que aqueça
Aquilo que sentimos por dentro.
O barulho do dia é quase imperceptível
O pensamento fixa-se nessa ausência
E a chuva que cai sobre o corpo
Gela a pele e a vontade de partir
Há-de um dia dar vontade de rir
Sim, eu sei, mas não hoje e não agora
Vai demorar a virar esta página pesada
E sempre que tentar escrever o dia de amanhã
Vou quebrar sobre o som da chuva
Mas um dia vai passar
Tal como o mau tempo passa
E as horas em que sinto sob um pedaço de papel
E morro um dia de cada vez.