Blog de poesia da Nádia.

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Quero agradecer a todos os visitantes que têm contribuido para que este blog seja um lugar muito especial para mim e que têm partilhado comigo a paixão que é a escrita. Um enorme abraço, do fundo do coração,
Nádia

Vozes que o coração sente 

Ensinaram-me um dia a sonhar.
Meteram-me dentro de um barquinho singular e
largaram-me ao cuidado dos ventos, que se antecipavam
a mim cada vez que eu respirava.
Disseram-me para a não creditar em anjos e em fadas.
Que era capaz de voar, nem que somente em pensamento,
porque a realidade deixava-me ser qualquer um e não
tinha de me contentar em ser eu mesmo, fosse eu quem
fosse. Alguém.
Ensinaram-me um dia a ser forte como o mar bravo e
sensível como os caudais do rio; ensinaram-me a
perseverança, mas também a teimosia. Fosse até ao fim
do mundo, ou apenas até ao fim da avenida, teria de
saber juntar-me aos grandes e ser feliz quando não
houvesse mais nada para ser.
Ensinaram-me a sustentar a alma com espaços vazios de
tudo o que fosse indivisível e deram-me novos nomes
para usar, caso a lua que me alumiasse não me
reconhecesse.
Falaram-me em ser Homem e ser valente; em ser
inderrubável e paciente; falaram-me , também, em
guiar-me pelo sol quando se pusesse a pique e em
orientar-me pelas pedras antracite que me cansariam os
pés.Nunca me falaram em amar. Nunca me disseram que podia,
um dia, olhar um olhar e sentir coisas novas,
que podem ter um nome qualquer, porque não interessa como
lhe chamam.
E afinal, descobri por mim mesmo que há
anjos que esvoaçam por aí e fadas felizes e prudentes,
que mais não fazem do que acelerar o nosso coração e
perder de vista o mundo, para que se construa um
outro. Não um outro qualquer! Um novinho em folha,
sobejamente mergulhado em frescor , com os sentimentos
puros de quem, não sabe que andou à procura, mas sabe
que encontrou o amor.


O eu e o tu 

Não consigo olhar-me ao espelho e ver-te a ti
Não é assim que me quero olhar
E um dia, quando esse dia chegar e mudar tudo
Vou conseguir ser melhor e sentir-me feliz
Por carregar nos meus braços
Uma parte de mim, uma outra parte de quem amo.
As noites em branco, o choro dobrado
As cantigas de embalo e os momentos de imensa ternura
Até as estrelas tentarei apagar
Para que a sua luz não lhe invada o sono.
Serei o calor do sol quando sentir frio
E o silêncio presente quando o momento o quiser
E isto, sim, é ser mulher e ser aquilo
Que afinal nunca senti verdadeiramente.
Nunca outros olhos serão mais belos
Outro sorriso será mais resplandecente
Nunca as minhas palavras farão tanto sentido
E apesar de ter medo de falhar
Tudo se perde e tudo se ganha
Cada vez que se olha para trás e se vê
Que amamos alguém que é nosso
E que esse alguém é quase comparável
A uma obra de um pintor
E se a isto não se chama amor
Os sonhos são somente mar.


Preto no branco 

Os dias são maiores
E as dúvidas e as consternações regem-se
Por duras regras de insensatez
E como se vê, as soluções escasseiam
Há gritos e desassossego
Há intolerância à diferença
Sórdida ignorância.
As ruas curvam-se por medo
Respiram-se tempos medievais
Que outras noites temerosas se seguirão?
Não é esta a mesma lua que nos alumia
Que faz de nós iguais a todos?
Não sou de uma cor só
Sou da cor que me visto
Da cor que me dispo
Da cor que um amigo é
Da mesma cor de quem partilha a vida
E de forma cristalina
Cuida de mim e de nós.
Nas páginas brancas me denuncio
Com lápis preto me interpretem
Porque o mundo meu não tem muros nem cartazes
Nem estereótipos para gente má
Se os há, é criação absurda
Antagónica maneira de amar
Mas há que acreditar
Que um dia haverá paz
Que não se fale nela, tão pouco
Que se faça nascer e se propague.


Expressões 

Invado o meu sofá vermelho
Ao som da avenida calada e do jazz do rádio
Sacudo os pensamentos do dia e suavizo os lábios já sem baton
Nem sabes como é maravilhoso poder dançar sobre a sala
Sentindo o teu respirar mais perto do que nunca
É natural que os passos flutuem na imperfeição
Mas meu amor, deixa que teus pés te levem onde o coração quer
Não deixes de ser feliz ao som desta melodia só porque estou aqui
E te assusta que depois da dança me ames mais do que pensas.
Prometo que te deixo ir embora e não digo uma palavra
Logo que desapareça esta magia que nos envolve
E a música se ausente desta sala.
Não prometo , porém, esquecer-me de ti quando adormecer
Ou mesmo quando sentir no rosto os primeiros raios de luz.
Se sentires o mesmo que eu escreve um bilhete e perde-o à janela
Há formas de amar que desconheces, mas que são tão simples
Como uma delicada carícia no rosto.
No limiar de cada canção quase caio do sonho
E limito-me a pedir em segredo que estejas mesmo ali
Já me habituei tanto a viver no meu castelo de sonhos
Que quase não distingo as cores das nuvens
E era capaz de jurar que o teu brilho é tão peculiar como o das estrelas
Fazes-me bem quando me agarras pela cintura e finges saber dançar
Enquanto me envergonho por te querer abraçar mais do que isto
Sabes o que prometo? Dançar contigo delicadamente, cada nota desta música
Se amanhã quiseres voltar e depois e depois e depois?
Sei que longos são os dias e as noites
Mas mais longa é esta vontade quase desonesta de te amar.
No sofá há lugar para dois. Dança comigo, só mais uma vez
O saxofone fala de nós.
Vamos nós falar de amor.


Ritmo 

Salto em cima da cama
Dançando com a própria dança
Hoje por motivo nenhum
Apenas por estar feliz
E porque o sol penetra pelo quadriculado das janelas
E não quero pensar em mais nada a não ser
No que é estritamente necessário
Sem pressas, sem tempos a cumprir
Apenas ter uma inalcançável vontade de rir
Sou o ritmo da pontas dos pés
Do batuque que acompanha a serenidade
E danço na leveza do ser
Mais solta do que o próprio vento
Escondendo a vergonha que usualmente me restringe
Quem disse que não se pode ser feliz?
Os livros não sabem nada
Para além do que neles escrevem
E eu escrevo que neste instante estou electricamente feliz
Porquê?
Hum?pelo perfume que circunda a minha pele
Pelo respirar de novos tempos
Pelo movimento do corpo
Na noite sujeita a dias quentes
Suculentos e promissores
Nem sempre só o amor
Nos faz sentir radiantes
Apesar desta natureza nova durar um só instante
O tempo para a música parar
Vou trautear até adormecer
E acreditar que para além de sonhos
Há o início e o fim de uma história por escrever
E sempre, uma música por ser dançada.