Ensinaram-me um dia a sonhar.
Meteram-me dentro de um barquinho singular e
largaram-me ao cuidado dos ventos, que se antecipavam
a mim cada vez que eu respirava.
Disseram-me para a não creditar em anjos e em fadas.
Que era capaz de voar, nem que somente em pensamento,
porque a realidade deixava-me ser qualquer um e não
tinha de me contentar em ser eu mesmo, fosse eu quem
fosse. Alguém.
Ensinaram-me um dia a ser forte como o mar bravo e
sensível como os caudais do rio; ensinaram-me a
perseverança, mas também a teimosia. Fosse até ao fim
do mundo, ou apenas até ao fim da avenida, teria de
saber juntar-me aos grandes e ser feliz quando não
houvesse mais nada para ser.
Ensinaram-me a sustentar a alma com espaços vazios de
tudo o que fosse indivisível e deram-me novos nomes
para usar, caso a lua que me alumiasse não me
reconhecesse.
Falaram-me em ser Homem e ser valente; em ser
inderrubável e paciente; falaram-me , também, em
guiar-me pelo sol quando se pusesse a pique e em
orientar-me pelas pedras antracite que me cansariam os
pés.Nunca me falaram em amar. Nunca me disseram que podia,
um dia, olhar um olhar e sentir coisas novas,
que podem ter um nome qualquer, porque não interessa como
lhe chamam.
E afinal, descobri por mim mesmo que há
anjos que esvoaçam por aí e fadas felizes e prudentes,
que mais não fazem do que acelerar o nosso coração e
perder de vista o mundo, para que se construa um
outro. Não um outro qualquer! Um novinho em folha,
sobejamente mergulhado em frescor , com os sentimentos
puros de quem, não sabe que andou à procura, mas sabe
que encontrou o amor.