Usas lanças aguçadas
Para inventares horas iradas
Escreves em linhas tortas
Palavras praticamente mortas
De angústia e saliva
De quem envergonha a própria vida
Só por saber que assim é.
Um dia assisti de perto
Ao quebrar de longas ondas
Hoje observo ao longe
Só sinto o chuveirinho que o vento traz.
Nunca lamentas
Nunca te tentas
A pensar no que tens sido
O tempo tem-te vencido
Admite, já não tens forças!
E não dás tréguas mesmo assim.
Já não negam os teus olhos
A permanência nas profundezas
Não entendes as grandezas
Para além do material
Do vidro de que te revestes
Da amargura de que te vestes
Da sombra que dorme em ti.
Deste lado da margem
Tudo é mais óbvio e saliente
A terra que os meus pés pisam
Cheira a maresia do ocaso
Sabe ao sal que já molharam meus olhos.
E me impediu de sentir a liberdade.
Mas deste lado da margem
Onde não me podes mais magoar
Posso gritar bem alto
Que tenho quem bem querer
Tenho quem me sabe amar.
Ao contrário do que se lia à luz das velas
As cinzas não escondiam as palavras
Elas estavam lá, unicamente por despeito.
Os quadros pintavam-se a óleo, enquanto lá fora
O frio gelava as paredes de papel, frágeis como
Castelos de brincar das crianças de outrora.
Procurava em cada degrau uma memória
Uma resposta às cartas que escrevia a ninguém
Somente desabafos que por ali ficavam até parecem tão tontos
Que o tempo se encarregaria de os apagar.
Olhava o comprimento dos dedos
O piano ausentava-se da sala por um lapso quase imperdoável
Como tantos outros sonhos que se houvera perdido.
Que graça teria se todos encontrássemos o destino
Que de uma forma ou de outra desenhamos para nós?
Apesar de tudo, os livros velhos das prateleiras
O pó que neles arranjara morada
Serviam para muito mais do que parecia.
Somos tantas vezes sonhadores descomedidos
Que tarde percebemos que a luz alberga mais do que luminosidade
E o amor que nos impede de quebrar
É o mesmo que nos empurra para a neve gelada
E nos obriga a procurar o calor.
Olho em volta do meu castelo e lanço um suspiro
Cada lugar deste lugar só é meu
Porque na existência de cada espaço estás tu
O lugar mais especial do mundo onde
Ao contrário do que se lia à luz das velas
Consigo sempre ser feliz