Ao contrário do que se lia à luz das velas
As cinzas não escondiam as palavras
Elas estavam lá, unicamente por despeito.
Os quadros pintavam-se a óleo, enquanto lá fora
O frio gelava as paredes de papel, frágeis como
Castelos de brincar das crianças de outrora.
Procurava em cada degrau uma memória
Uma resposta às cartas que escrevia a ninguém
Somente desabafos que por ali ficavam até parecem tão tontos
Que o tempo se encarregaria de os apagar.
Olhava o comprimento dos dedos
O piano ausentava-se da sala por um lapso quase imperdoável
Como tantos outros sonhos que se houvera perdido.
Que graça teria se todos encontrássemos o destino
Que de uma forma ou de outra desenhamos para nós?
Apesar de tudo, os livros velhos das prateleiras
O pó que neles arranjara morada
Serviam para muito mais do que parecia.
Somos tantas vezes sonhadores descomedidos
Que tarde percebemos que a luz alberga mais do que luminosidade
E o amor que nos impede de quebrar
É o mesmo que nos empurra para a neve gelada
E nos obriga a procurar o calor.
Olho em volta do meu castelo e lanço um suspiro
Cada lugar deste lugar só é meu
Porque na existência de cada espaço estás tu
O lugar mais especial do mundo onde
Ao contrário do que se lia à luz das velas
Consigo sempre ser feliz