Usas lanças aguçadas
Para inventares horas iradas
Escreves em linhas tortas
Palavras praticamente mortas
De angústia e saliva
De quem envergonha a própria vida
Só por saber que assim é.
Um dia assisti de perto
Ao quebrar de longas ondas
Hoje observo ao longe
Só sinto o chuveirinho que o vento traz.
Nunca lamentas
Nunca te tentas
A pensar no que tens sido
O tempo tem-te vencido
Admite, já não tens forças!
E não dás tréguas mesmo assim.
Já não negam os teus olhos
A permanência nas profundezas
Não entendes as grandezas
Para além do material
Do vidro de que te revestes
Da amargura de que te vestes
Da sombra que dorme em ti.
Deste lado da margem
Tudo é mais óbvio e saliente
A terra que os meus pés pisam
Cheira a maresia do ocaso
Sabe ao sal que já molharam meus olhos.
E me impediu de sentir a liberdade.
Mas deste lado da margem
Onde não me podes mais magoar
Posso gritar bem alto
Que tenho quem bem querer
Tenho quem me sabe amar.