Blog de poesia da Nádia.

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Quero agradecer a todos os visitantes que têm contribuido para que este blog seja um lugar muito especial para mim e que têm partilhado comigo a paixão que é a escrita. Um enorme abraço, do fundo do coração,
Nádia

Não quero que faça noite 

Estive lá. As mãos suavam como se um rio habitasse nelas. O coração pulsava desenfreadamente. O teu olhar encadeava-se no meu. Célere o sentimento.

O longe , o perto, o silêncio, o barulho…sentia tudo ao redor, ao mesmo tempo. A tranquilidade…vinha de ti, do formato dos teus lábios, da forma exaltante como caminhavas para o meu abraço.

Olhar-te…não conseguia cansar-me. Como se fosses uma paisagem feliz, depositada num quadro pintado a óleo. A conciliação de todos os sons perfeitos. Lembras-te?

Estive lá e perdi-me. Como foi bom encontrar-me. Lá fora faz frio. Já não importa. Como tantas outras coisas não importam, quando a única finalidade dos actos é a felicidade. Seja ela permanente ou simplesmente um lugar de passagem. Ora o sol, ora a lua…eu e tu, separados por horas luz, diferentes nas sensações, nos sabores, nas palpitações.

Estiveste lá. Da janela via o mar. Olhava-te como se soubesse mais de ti do que tu mesmo. Não ria, não resmungava. Contemplava a forma de estarmos juntos. Presos a nuvens soltas, improváveis certezas.

Hoje estou aqui. Não estás. É tão óbvio como fechar os olhos e ver breu. Mas ainda assim. Hoje estou aqui. Lamento que não estejas. Simplesmente porque o longe e o perto, o silêncio e o barulho se conjugam como o entrelaçar dos dedos. E quando estava contigo ,sentindo que mais cedo ou mais tarde nos iríamos desagregar, só pensava: “Não quero que faça noite”. Mas a noite chegou na mesma…



A bigorna e o piano 


Persianas levantadas, café acabado de fazer e um dia atrás do outro,como convém. Aparentemente tudo na mesma.
Sobre mim o céu, ainda escondido pelas nuvens matinais e inevitavelmente, um piano suspenso por quatro fios de nylon. Assustador, não é?Bem-vindos ao meu mundo...e não só.
Quem não se recorda das aventuras do "bip bip". O pobre coiote lá ia tentando, numa intensa azáfama, apanhar a avestruz,mas o máximo que conseguia era levar com um piano pela cabeça abaixo ou sentir a leveza de uma bigorna.
De orelhitas baixas e auto-estima em "low battery", lá se rendia às evidências e ao doloroso destino.
Pois bem, em tom de brincadeira, quando algo extraordinariamente bom me acontece, de alguma forma espero sempre que o piano surja. Assim acontece com uma amiga minha (não é, B?) , que tem a mesma percepção das coisas, mas como o piano já estava ocupado ficou com a bigorna...com a bigorna e com os fados corridos. Mas porque não o Hino da Alegria???!!!
Se o caricato tivesse morada não tinha uma, tinha duas, a minha e a dela. É bárbaro, eu sei, mas é verdade.
Só ainda não escrevemos um livro porque ainda não chegamos a consenso quanto ao tipo de letra.
Não tarda o destino oferece-nos um cheque-prenda para gastarmos em espanta-espíritos.Isto só pode ser vudu!!!
E pronto, não a fim de descobrirmos a Patagónia, mas sim deixarmos para trás os últimos acontecimentos, resolvemos marcar umas férias juntas. Com sorte voltamos com os primos direitos da bigorna e a tia-avó do piano, mas como há sempre a possibilidade de regressarmos com uma gargalhada no bolso e um brilhozinho nos olhos, aí vamos nós!
Que dizes B, arriscamos?
(Ufa, consegui acabar...).




Amiguinha 

Que saudades sinto de ti
Parecem não caber cá dentro.
De repente ficou escuro
Perdi-te.Tive de te perder.
Este vazio não vai cessar nunca
Sei-o pelos cheiros que a casa tem
Sei-o pelo silêncio que se renovou
Perante a tua ausência.
Não consigo ainda acreditar que não estás
Vejo-te ainda, oiço-te ainda
Quero e não quero esquecer-te
Magoa sempre que te faço regressar
Em forma de sentimento mental.
Onde quer que estejas agora
Que sejas tão feliz como foste
Cada vez que partilhámos brincadeiras
Cada vez que correste pela casa quase sorrindo
E desculpa o tempo que não passei contigo
Por meros acasos da vida.A mesma vida que te levou.
Ainda aqui estás.Comigo.Não estando.Adoro-te.


Definição 

Não há nada a dizer
As palavras não planam,
Não fingem a dor ou a honra
As palavras precipitam-se
De uma forma letal.
Formam círculos de vazio
Onde já nada se descreve
Por entre as alíneas
São ásperas e físicas
Não deixam rasto de boa vontade.
São propagação de frio humano.
Nem sempre.Hoje são.Em mim.
Sirvo-me delas para expulsar o desalento
A vasta desilusão que me cerca no momento.
Mas há palavras bonitas.
Tão bonitas que poderiam fazer de lua
Mascarar-se de eclipse
Numa noite de teatro de rua.
Neste fim que intercepto
Já a paz me olha ao longe
E as palavras me perdoam
Pelas palavras que escrevi.