Todos os dias me pergunto a razão de ser tudo tão dificilmente simples.
Tento em cada jornada da vida simplificar sentimentos, simplificar acções com o objectivo claro de ser feliz e fazer feliz quem amo. Mas há sempre uma estratégia da vida que nos faz pensar demais, que nos faz escolher os caminhos mais tortuosos, que nos obriga a optar por umas palavras em vez de outras.
Quando se tenta simplificar, tudo se complica.
O mundo de cada um tem as suas próprias paredes, as suas próprias cores e defeitos. O mundo dentro do mundo é já tão complexo que estaríamos aqui até sempre a tentar perceber as suas nuances.
Quando dois mundos colidem, no sentido de se interceptarem por vontade mútua, a dificuldade toma proporções inimagináveis. É o branco na tentativa frustrada de integrar o preto, mas não pretendendo perder identidade. É o minuto perdido de um, que para o outro é um minuto perfeitamente aceitável. É o bem de um que não coincide com o bem do outro...
São inúmeras as linhas transversais que temos de assegurar durante a vida, correndo riscos, magoando e sendo magoado. Aguardando que algo mude, mas nem tudo. Sonhando com a perfeição, cada vez mais disforme.
As respostas transformam-se em perguntas, as perguntas em incertezas e as incertezas em pensamentos e sentimentos confusos demais para poderem ser expressados na sua completa magnitude.
Não encontrei resposta para esta vida complicada que levo, simplesmente por amar e querer conciliar os dois mundos, controversos, adversos, porém tão significantes que nos fazem permanecer com orgulho, por vontade própria.
Talvez a resposta esteja na simplicidade que nunca poderemos alcançar, por sermos assim, concebidos na arte obstinada de dificultar a vida, no que ela tem de mais puro e transparente.
Tal como agora...não sei quando terminar de escrever. Deveria parar assim, sem mais, mas não consigo. Tenho de encontrar a conclusão perfeita...mas porquê? Seria mais simples deixar de escrever e na ausência das palavras residiria então o fim. Mas não... ainda aqui estou.
Ser simples... o sonho de muitos, a realidade de poucos.
O simples bater das palmas o incita a criar o maior sorriso de sempre.
Os seus 212 dias de vida são colossais para mim, para nós.
A franqueza dos seus movimentos, a habilidade com que faz parecer fácil a simplicidade, atenua todas as problemáticas que assombram a vida de um adulto.
Sorrio e desperto nele uma gargalhada, imito um som seu e rejubila , como se um céu imenso de estrelas se acendesse sobre o seu olhar.
Esse, tão profundo como o seu soninho encanta quem o conhece, deixa mistério a quem passa. A felicidade é genuína.
A cor, os gestos, os sons, a luminosidade e a constituição das coisas são futuras descobertas. Inocentes como ele mesmo. Indiferente à guerra, à especulação inerente aos dias de crise.
Gosta da Galinha Patareca e de sustos. Bu! E solta uma gargalhada inalcançável.
Treme de contentamento quando vê o pai, sorri com ar de malandreco quando eu acordo e o olho, entretido a meter conversa com a chupeta. E dialoga minutos sem fim, libertando sons semelhantes a palavras, que só ele entende.
Limitámo-nos a admirá-lo, tal admirável mundo novo.
Estende a sua pequenina mão para nos alcançar, para tocar os cabelos, cada pedaço do rosto e olha-nos de forma intrigante. O espelho dá-lhe a noção de beleza que ainda desconhece. Percebe somente que existe enquanto "Eu" , mas não percebe os meandros da filosofia.
A perspectiva de mim, do amanhã, de cada momento mudou, bem como a minha condição aqui. Aqui no mundo, aqui no lugar que ocupo no coração dos que me querem bem, aqui na sala de estar, aqui no pedaço de tempo que tomo meu para escrever, aqui num sentimento líquido, puro e imenso.
Talvez um dia alguém descubra uma forma de plantar um amor assim...porque é demasiado bom de sentir.