O simples bater das palmas o incita a criar o maior sorriso de sempre.
Os seus 212 dias de vida são colossais para mim, para nós.
A franqueza dos seus movimentos, a habilidade com que faz parecer fácil a simplicidade, atenua todas as problemáticas que assombram a vida de um adulto.
Sorrio e desperto nele uma gargalhada, imito um som seu e rejubila , como se um céu imenso de estrelas se acendesse sobre o seu olhar.
Esse, tão profundo como o seu soninho encanta quem o conhece, deixa mistério a quem passa. A felicidade é genuína.
A cor, os gestos, os sons, a luminosidade e a constituição das coisas são futuras descobertas. Inocentes como ele mesmo. Indiferente à guerra, à especulação inerente aos dias de crise.
Gosta da Galinha Patareca e de sustos. Bu! E solta uma gargalhada inalcançável.
Treme de contentamento quando vê o pai, sorri com ar de malandreco quando eu acordo e o olho, entretido a meter conversa com a chupeta. E dialoga minutos sem fim, libertando sons semelhantes a palavras, que só ele entende.
Limitámo-nos a admirá-lo, tal admirável mundo novo.
Estende a sua pequenina mão para nos alcançar, para tocar os cabelos, cada pedaço do rosto e olha-nos de forma intrigante. O espelho dá-lhe a noção de beleza que ainda desconhece. Percebe somente que existe enquanto "Eu" , mas não percebe os meandros da filosofia.
A perspectiva de mim, do amanhã, de cada momento mudou, bem como a minha condição aqui. Aqui no mundo, aqui no lugar que ocupo no coração dos que me querem bem, aqui na sala de estar, aqui no pedaço de tempo que tomo meu para escrever, aqui num sentimento líquido, puro e imenso.
Talvez um dia alguém descubra uma forma de plantar um amor assim...porque é demasiado bom de sentir.